Eventos Feministas

06 outubro 2011

'A caminho da expurgação

   Filhos educados.Missão aparentemente cumprida. O casarão de sempre, apenas mais vazio, com cheiro de santidade, aromatizado por vinho e naftalina. Resquícios de linhas do antigo ofício esquecido pelos cantos.A velha modista tricotara um novo vestido para si. Agradava-lhe o toque da lã sobre a pele fina e sensível. 
   Fora casada por mais de cinquenta anos. Durante este tempo nada houvera para temer.O falecido marido não foi homem que se entregasse à paixões. E devido ao temperamento tranquilo e racional, lhe oferecera estabilidade material e segurança.



  Agora viúva, filhos a tecer os próprios caminhos, sentia-se assombrada pela liberdade que lhe acenava, e parecia limitada apenas pela responsabilidade intransferível de determinar os próprios passos.
   Livrar-se de certos laços sempre foi uma aspiração. No entanto, um monstro com cem olhos a espreitava sem jamais descansar.Rezava em busca de consolo, ambicionava encontrar uma saída.
Ariadne, antes tão certa sobre qual trajetória seguir, tinha chegado ao fim da linha. E estava perdida.
   Questionou tuas realizações, e deparou-se acuada pelo tempo.Precisava agir.  Matriculou-se em uma academia de dança.Tinha ânsia em remover a angústia, a sensação de ter sido abandonada. Até porquê, nas raras visitas que recebia dos filhos, temia transformá-los em pedra, devido às rudes palavras proferidas, mistas de solidão e mágoa.


   No primeiro dia de aula, trajada com o novo vestido por ela confeccionado, desequilibrou-se em um rodopio.Fraturou o tornozelo. O médico recomendou repouso absoluto e a advertiu sobre o perigo de quedas em tua avançada idade.
   Como jazia sozinha,contratou o sobrinho de uma vizinha, Hefaísto , estudante de enfermagem, para lhe fazer companhia.O rapaz era inteligente e sensível, irradiava viço e alegria. Bastante maduro para a idade que de fato tinha, fez-se amigo.E apesar da diferença contrastante, atraíram-se pelas semelhanças e tornaram-se confidentes.
   Ariadne fora coibida em tuas vontades. Hefaísto mal ensaiava a vida, já tinha reprimido  n' alma o desejo de gozar  daquilo para o qual sabia-se forjado:tua arte.

   Vindos de famílias conservadoras, não obstante a distância temporal que os distinguía,oprimiram na epiderme tuas paixões. Ele não seria um escultor. Ela, educada para servir, não ousaria a liberdade.
Em meio a cumplicidade adquirida, uniram-se em rebeldia, decidiram vivenciar os desejos.Dessa forma, ela aceitou posar para que o amigo criasse um molde em argila, ainda que  ruborizada pela insegurança da expos´ção do corpo gasto, ante o jovem amigo sonhador.


  Antes o retângulo argiloso sobre a bancada. Olhos a devassar a nudez ainda sensitiva. Com a espátula, o barro rugoso alisado e aberto com vigor.Ímperto na formação de volume...e reentrância. Uma elegante nuca na carícia dos dedos.Costas arqueadas.Um queixo imponente, a boca ligeiramente aberta é molhada. Mãos ágeis atrevendo-se no contornar dos mamilos. Ventre concebido pela ávida movimentação de Hefaísto. Pernas entrelaçadas, pés em ponta, tal qual uma bailarina.
   Ao deparar a face por ela inspirada, sentiu-se leve, e o mundo perdeu vários quilos. Extasiada, descobriu-se de novo fêmea. Liberta, dentro e fora do corpo.Justo ela, que jamais usou minissaia, era Afrodite convidativa naquele instante. Foi definitiva e profundamente tocada, as inibições lançadas ao rio do esquecimento.


 Transmutada asssim em pura beleza, viu a morte cessar o ranger de dentes intimidador. O olhar de Hefaísto varreu de teu espírito as incertezas, tuas mãos lhe esculpiu a eternidade.
   Comovidos pela exploração sensorial, arrebatados que foram com a emoção que veio 'a luz, renasceram. Ele com a nova faceta de Ariadne em teus braços, prometeu que dela cuidaria. Ela, que em teu talento investiria.
  Fortalecidos, transfundiram-se em coragem.Certo que fitados seriam por olhares de desaprovação. Mas a quem isto importava?
  Desde então, anoitecem e amanhecem unidos, ao iludir o tempo e a morte, na confecção de uma nova textura para a vida.
  


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