Eventos Feministas

01 junho 2011

Tomografia Suburbana


Numa tarde como tantas outras, na capital de São Paulo.Linha 123. Terminal Bandeira. Destino:extremo sul da cidade. Aqui estou. Sete dias na semana.

Todos os passageiros acomodados, as mesmas reclamações recorrentes:

_ A disposição destes ônibus novos são um horror!_ dizia o senhor com barba farta, preenchendo a revista de palavras cruzadas.

_Concordo...estranho ficar frente à frente desconhecidos. _ respondia a mocinha mascando chiclete, sem interesse em manter conversa, mas com os olhos fixados no charmoso rapaz com camisa pólo azul que acabara de passar a catraca, e sentara-se em uma das poltronas à frente.

Sobre este mesmo rapaz, comentava o velho acinzentado sentado na poltrona de encosto amarelo, com costas curvas e voz rouca, ao cobrador:


_Esse rapazinho é fruta, tenho certeza! Quem me dera ter essa pinta toda!Pegava um montão de garotinha!_e tossia tua tosse seca.

Sentada em uma poltrona alta nos fundos,a morena com coque displicente olhava além, na janela.E sob o túnel surfava ondas azuis e curvas, grafitadas no concreto armado. Deitava a cabeça no vidro. Isto era a cara de São Paulo”, pensava enquanto encarava uma nova e radical manobra ilusória.

Uma mulher com saia comprida dorme profundo e pesado quando o "cowboy" de chapéu country senta-se ao lado, e, decidido a acorda, lhe chacoalhando o ombro. Com olhos esbugalhados, a senhora pulou da cadeira segurando firme à bolsa.O homem a puxou pelo braço de volta ao assento e confessou:

_Só te chamei pra mó di nóis prosear.Só isso.

A mulher o encarou perplexa e disparou:

_Agora visse, moço! Tô cansada, dormi nada fazendo hora extra, corpo moído... um desocupado que eu nunca vi mais gordo me acorda desse jeito! Agora... encosto de novo e durmo. Se me acordar de novo, eu grito!

Ao que o homem de chapéu respondeu, vermelho e com dedo em riste:

_Mas que gentalha o povo desse lugar!Prosear é crime por aqui?E se a senhora me respondesse grossa assim, e eu tivesse uma arma embaixo da camisa?Imagina se eu resolvo atirar?


O sol queimava, a cidade tinha mais residências, agora não havia tantos edifícios

O alto mulato com cara de poucos amigos deu sinal para o ônibus parar e atirou o sertanejo "destruidor de sono alheio" porta à fora aos safanões.Sem palavra.


Os que observaram a cena riram, e discutiam sobre cansaço, tolerância e solidão.

Estudantes cheios de entusiasmo e espinhas, exibindo orgulhosas cabecinhas carregadas de presilhas ou gel cola, previam em detalhes o futuro que teriam aos colegas.

grafite 3d
Enquanto isto, escureceu. Um bebê chorava em mil decibéis no colo da avó. Colegiais riam estridentes.A idosa resmungava por ninguém lhe oferecer assento. As buzinas ensurdeciam no congestionamento habitual. O funk de um mp3 rimava cachorras e novinhas. Passageiros gritavam ao motorista.Um vendedor ambulante tenta vender canetas.

Assim chego à periferia. Cumpro enfim meu itinerário.Os passageiros descem um à um. Sou levado à garagem de veículos públicos e vistoriado. E depois de varrido e lavado, descanso.

Porque até as máquinas paulistanas têm esse direito. 
































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