Eventos Feministas

08 maio 2012

Feminismo e Autojustificação






Fase atual do feminismo: 
  • Para quê? 
  • Por quê?
  • Para onde?
  • De que modo?






Como qualquer movimento revolucionário tanto da teoria quanto da prática, o feminismo causa incômodo. Compreendê-lo é uma tarefa do nosso tempo, quando seu alcance prático ainda gera efeitos também teóricos. Hoje não podemos mais falar de um feminismo, mas de diversas correntes, posições e autores que ajudaram a levar adiante a causa feminista, inclusive pondo-a em xeque e definindo um rumo ainda mais crítico para o pensamento dos nossos dias.

Diz-se feminismo para todas as correntes de pensamento que se ocuparam dos direitos das mulheres e que surgiram, sobretudo, no século 18 no período iluminista. A existência intelectual de certas mulheres já fora afirmada e reconhecida, mas é apenas no Iluminismo que aparecem textos de feministas assim declaradas: Olympe de Gouges, na França, e Mary Wollstonecraft, na Inglaterra.


O feminismo filosófico não deve ser confundido com uma filosofia de mulheres, ainda que seja significativo que elas o construam. Podemos chamar feministas todos os poucos pensadores (de Condorcet a Stuart Mill) que defenderam os direitos das mulheres contra a esmagadora maioria de pensadores que discursaram contra as mulheres (de Platão a Kierkegaard, passando por Kant e Schopenhauer).


O problema feminista para a filosofia deve ser compreender como fundamentar a razão (a teoria) – e a capacidade de argumentar com o poder que dela advém (a prática) .


Feministas como Mary Wollstonecraft criticaram essa postura mostrando que havia algo de podre no reino do Iluminismo que se esforçava por construir uma “universalidade” da espécie humana excluindo dessa “universalidade” a metade representada por mulheres. Incorria assim numa autocontradição cujo ocultamento de figuras importantíssimas como Kant patrocinariam em termos de uma justificação jurídica que sempre apelou para uma natureza menor – intelectual e física – das mulheres.


Que as mulheres não tivessem aptidão para o conhecimento era justificado na base de sua natureza maternal e sensível própria para ações que deviam ser confinadas no âmbito protegido do lar. O feminismo consequente do ponto de vista filosófico deve se ocupar hoje em questionar o que significa inclusive “as mulheres”, se existe algo que deve ser colocado sob essa expressão.

Apenas a discussão contemporânea sobre o “gênero” veio desmanchar esta crença na natureza que não teria sido transformada pela cultura e que tomava as mulheres e os homens como prisioneiros de um sexo biológico sobre o qual não haveria interferência. Judith Butler, por exemplo, tratará até mesmo o sexo como uma construção alertando para o problema da linguagem humana como um poder na definição do pensamento e da ação. A discussão sobre gênero foi a chave para uma grande abertura teórica e prática no feminismo que acabou por reproduzir aquele objetivo bem antigo de construção de um ideal de universalidade em que todos os indivíduos, independentemente de sua sexualidade, tivessem lugar.

  Um chão metafísico que tanto constrói quanto enclausura as mulheres ao dar base à suposta “natureza feminina” era o que estava em jogo até Simone de Beauvoir, em O segundo sexo, de 1949 – livro que foi um divisor de águas na própria história da filosofia ao levantar a questão do feminino como uma construção dos homens. Anos antes, Adorno e Horkheimer, analisando a construção patriarcal da razão na Dialética do Esclarecimento, já haviam sustentado com menos alarde a mesma tese. Mas é Beauvoir, tão criticada e, para alguns, já superada na discussão por pensadoras como Betty Friedan, Julia Kristeva e Judith Butler – todas envolvidas, cada uma a seu modo, com a crise da identidade feminina –, quem abre os olhos para problema.

   Que a mulher seja um Outro do homem, que a mulher seja um Outro da Razão, não é hipótese que se possa descartar sem uma crítica e análise cuidadosas. Foi essa posição de Beauvoir que levantou a cisão entre feminismo da igualdade, a corrente universalista em busca dos direitos das mulheres, e a essencialista, a corrente da diferença que tanto pode recorrer à igualdade de direitos, apesar da diferença de “natureza”, quanto simplesmente sustentar o feminismo como guerra contra “homens” e, na verdade, em favor de um mundo de desigualdade que recai sobre as próprias mulheres, novamente defensoras da maternidade como principal papel metafísico sempre disfarçado de “papel natural”, como a lúcida análise de Elisabeth Badinter mostrou nos últimos tempos.

 Todo feminismo consequente precisa continuar lutando pelo direito de cada um dentro do todo, sem ingenuidade de que os direitos se construam apenas pelos discursos, ainda que sua fundamentação passe por eles.

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